• JOSEMARBESSA.COM

    A Prova da Sola Fide - Dr. John Armstrong


    - O caluniador moderno faz objeção - sola fide é só um argumento que veio da experiência psicológica de Lutero e dos debates escolásticos medievais da época. [Dizem eles que] simplesmente não é o ensino direto do Novo Testamento. Mas, com Lutero e Calvino, estou persuadido de que se a pessoa entende o ensino de Paulo em Romanos e Gálatas, então sola fide realmente é o ensino claro do Novo Testamento. A contribuição de Lutero foi esta - ele trouxe á luz do dia o ensino claro e significativo da doutrina de Paulo da sola fide. Ele não a inventou, nem a redescobriu, pelo menos no sentido de que já havia sido tão claramente afirmada antes.

    Quando Lutero foi atacado por acrescentar a palavra somente à sua tradução alemã de Romanos 3.28, ele respondeu que "... a palavra extra foi necessária no alemão para destacar a força do original". Será que ele está certo em sua afirmação?
    Se vamos responder a essa pergunta, devemos observar algumas coisas muito importantes que Paulo ensina especificamente com respeito à fé e o relacionamento dela com a nossa justificação. Primeiro, o apóstolo, referindo-se à fé do patriarca Abraão em Gênesis 15.6, escreve:


    "Pois que diz a Escritura? 'Abraão creu e isso lhe foi imputado para justiça'. Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como recompensa. Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça" (Aos Romanos 4.3-5).

    Seria fatal para o evangelho e para o argumento todo de Paulo transformar a fé referida aqui em "obra". A fé de Abraão não foi um substituto da obediência (cf. Hb 11.8). Para ser preciso, era uma fé para (eis) justiça, não em vez de (anti) justiça.
    Em Romanos 4.3-5 há uma clara antítese. A antítese não está entre o que trabalha e o que não trabalha, e sim entre o que trabalha e a pessoa que não trabalha, porém crê. Esse crer tem uma qualidade e orientação específica, a saber, "{crê} naquele que justifica o ímpio...".

    Segundo, Paulo ensina com a mesma clareza que os crentes são justificados "mediante a fé" (dia pisteos, Rm 3.25). E mais tarde, em 3.28, é aquilo que é "pela fé" (pistei). E novamente em [Romanos] 3.30 é "por fé" (ek pisteos). J. I.Packer observa apropriadamente:

    "O dativo com a preposição dia (mediante) representa a fé como o meio instrumental pelo qual Cristo e sua justiça são apropriados; a preposição ek (de, saído de) mostra que a fé ocasiona, e logicamente precede, nossa justificação pessoal. Que os crentes são justificados dia pistin, por causa da fé, Paulo nunca diz e haveria de negar."

    Se a fé fosse a base real da justificação, a fé seria então uma obra meritória. Se a fé fosse uma obra meritória, em qualquer sentido, então Paulo estaria dizendo algo do qual discorda redondamente em outros lugares da Bíblia. Em Romanos 11.6, ouvimos o mesmo apóstolo dizendo "... se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça". A fé não é justiça, nem mesmo um substituto da justiça. A fé é, antes, as mãos vazias de uma alma crente que se estende para aquele que justifica os ímpios na base de misericórdia somente.

    Terceiro, fazer da fé o único canal da justificação é coerente com a ênfase da doutrina de Paulo de que as obras são inteiramente excluídas da declaração de Deus de que o pecador crente está justificado. Romanos 3.28 declara: "Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei". E Gálatas 2.16 acrescenta: "sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois por obras da lei, ninguém será justificado". O texto clássico sobre isso é muitas vezes citado mas poucas vezes apreciado. Efésios 2.8,9 diz: "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie".

    Deve-se notar nesse ponto que se as obras contribuem para a justificação diante de Deus ou antes ou depois que nos chegamos à fé em Cristo, então nossa salvação também não é somente pela graça. Isso leva a uma rejeição de sola gratia tão certamente como de sola fide. Mas que diremos do ensino de Tiago? A epístola não ensina que a justificação é alcançada por meio de obras meritórias, nem mesmo de fé que opera interiormente pelo amor, e sim que as obras dão prova de fé. Tiago condena esse tipo de fé sem eficácia, isto é, uma fé que não confia genuinamente. Paulo condena as obras em termos de estarem acrescentando algo de mérito (ou de valor) à fé do pecador crente. O conflito por vezes imaginado entre essas duas epístolas não existe quando elas são entendidas corretamente. Para o apologista católico contemporâneo Scott Hahn, dizer repetidamente que Lutero ensina a fé somente enquanto Tiago ensina a fé que opera é uma deturpação tanto de Lutero como de Tiago (veja abaixo a Análise de Tiago 2).

    Quarto e último, Paulo revela, ao se apoiar em Habacuque (citado em Rm 1.17), que ele crê que o homem piedoso ("o justo") goza o favor de Deus e a vida por causa de sua resposta confiante a Deus, Paulo diz: "... visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: 'O justo viverá por fé'"(Rm 1.16-17).
    Gramaticalmente, o versículo 17 pode estar dizendo ou que "pela fé" um homem é "justo" ou que "pela fé" "ele viverá". Lutero optou pelo primeiro. Os comentadores contemporâneos como Cranfield concordam. Outros optam pela segunda possibilidade. O primeiro sentido parece fazer melhor uso do contexto da epístola, mas por qualquer dos dois Paulo está dizendo que a justiça é absolutamente necessária para salvação. Mas o que é essa "justiça que é pela fé"? Como o pecador chega a essa justiça? Como Deus a dá ao pecador? Filipenses 3.9 se refere a isso como "a justiça que procede de Deus mediante a fé". É a justiça de Deus precisamente porque Deus a providenciou. A Nova Versão Internacional (NIV) da Bíblia traduz essa expressão paulina corretamente quando a chama de "uma justiça de Deus" (dikaiusune Theou).

    Essa "justiça de Deus" pode ser entendida como o ato de Deus ou então pode ser a provisão de Deus. De um modo ou de outro Paulo está falando de algo inteiramente objetivo, isto é, fora do homem. Esse é o sentido óbvio de Romanos 3.21 onde Paulo diz mais que, "agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus...". Nenhum cumprimento da lei pelo crente pode acrescentar um til à salvação que é toda de graça.

    Além disso, Romanos 4.6 diz: "... Deus atribui justiça, independentemente de obras". A questão central, tanto aqui como no versículo 5, é esta - Deus imputa a justiça, isto é, ele a atribui àqueles que crêem, só na base de promessas graciosas e bondosas de Deus (cf. Rm 4.18). O conceito de imputação, que é entendido na palavra "atribui" (vs. 6), é sinônimo de justificação nessa frase. Se isso não for verdade, então todo o argumento de Paulo cai por terra. Sua tese é bem clara - a justificação é por fé e não por obras, portanto é sozinha, e deve ser sozinha, porque do contrário algo teria, necessariamente, de lhe ser acrescentado.

    E quando Paulo diz que essa justiça de Cristo é "de fé em fé", ele quer dizer que é pela fé do começo ao fim. É um modo de dizer que a graça é recebida por fé e por nada senão a fé - isto é, sola fide. Ele reforça essa declaração sumária em vários pontos, como em 4.6 onde diz: "... o homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras".

    A verdadeira fé salvadora, por definição bíblica, precisa vir só - qualquer coisa que lhe fosse acrescentada tornaria algo diferente de fé. Essa idéia está presente em declarações explícitas, como já vimos, mas também pode ser vista tanto nos contrastes como nas negativas que vemos em vários desses textos. "Somente" é parte integrante do sentido paulino da fé em si. Se a graça de Deus não é dada ao homem por meio da fé somente, então o que chamamos de fé bíblica não é fé de maneira alguma. Ou eu levo algo para a aceitação de Deus pela graça ou eu nada levo. Se nada apresento, então sou salvo pela, ou mediante a, fé somente. Se levo algo á aceitação de minha pessoa por Deus como pecador culpado, então tenho algum espaço para me gloriar. Se nada levo, então tudo que posso fazer é confiar inteiramente em Cristo e sua justiça. Como diz um velho hino:

    Numa vida que não vivi,
    Numa morte que não morri,
    A vida de Outro, a morte de Outro,
    Nisto repousa toda a minha eternidade.

    Ainda mais, se a justificação não é pela fé somente, como Paulo raciocina, então não pode ser por Cristo somente, ou "pela justiça de Cristo". Por quê? Porque fé significa, simplesmente, que Cristo me salva, não a igreja, não minhas obras, não outro salvador mas Cristo somente! Eu nada posso fazer. Nada preciso fazer senão confiar, e mesmo essa confiança, essa fé, me é dada graciosamente pelo próprio Deus. De fato, não pode haver lugar para o ser humano gloriar-se numa obra divina tão grande.

    A Justificação pela Fé somente e Tiago 2

    Aqueles que mantém uma visão tridentina da justificação, negando que a fé somente seja suficiente, apelam para Tiago 2.14-26 como sendo sua prova textual. Afrimam que a Bíblia nunca emprega a frase “justificação pela fé somente”, o que concedemos, mas que ela declara que Abraão não foi salvo pela fé somente. Na verdade, nos é dito que Abraão foi “justificado por suas obras". Tiago 2.14-26 diz assim:

    (14) Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? (15) Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, (16) e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? (17) Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta. (18) Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé. (19) Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios crêem e tremem.(20) Queres, pois, ficar certo, ó homem insensato, de que a fé sem as obras é inoperante? (21) Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque? (22) Vês como a fé operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou, (23) e se cumpriu a Escritura, a qual diz: Ora, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça; e: Foi chamado amigo de Deus. (24) Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente. (25) De igual modo, não foi também justificada por obras a meretriz Raabe, quando acolheu os emissários e os fez partir por outro caminho? (26) Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta.

    Aparentemente, a impressão é que Paulo e Tiago estão divergindo entre si. Paulo ensina que Abraão foi justificado pela fé somente e Tiago parece estar ensinando o contrário, que Abraão foi justificado por suas obras. São duas visões diferentes, ao que parece, e ambas estão apelando para Abraão para provar sua tese.

    Distinguir a verdade aqui não é tão difícil quanto pode parecer à primeira vista. O livro de Tiago é o equivalente no Novo Testamento à literatura de “sabedoria” do Antigo Testamento. Na mente hebraica, a sabedoria é como se vive. É prática e não teoria ou, talvez, prática baseada em teoria. Tiago está respondendo à pergunta: “O que é uma fé viva e vital?” ou como Lutero chamava “uma fides viva”.

    Às vezes a terminologia teológica impede nossa compreensão do Novo Testamento. Por exemplo, em 1 Timóteo 2.15, Paulo diz que as mulheres serão salvas por darem à luz. Ora, sabemos que as mulheres não são justificadas por ficarem grávidas. As palavras têm sentidos diferentes de acordo com seu contexto. E a palavra grega para justificação ou justificado pode ter pelo menos sete sentidos diferentes.

    Em Romanos, Paulo está escrevendo doutrina, e tratando da questão de como uma pessoa é levada à paz com Deus. Tiago não está escrevendo doutrina, e sim examinando qual é a essência da fé autêntica, ou a evidência da fé justificadora. Em Mateus 11.19, Jesus afirma que a “sabedoria é justificada por suas obras”. Será que isso significa que a sabedoria é levada a um relacionamento correto com Deus? Não, Jesus simplesmente diz que a sabedoria prova ser sabedoria pelos frutos de sabedoria!
    Precisamente falando, Paulo e Tiago não estão discorrendo [exatamente] sobre a mesma coisa. Paulo apela para Gênesis 15.6: “Abraão... creu no Senhor, e isso lhe foi imputado como justiça”. Pela fé, Abrão (Abraão) foi justificado diante de Deus. Por outro lado, Tiago apela para Gênesis 22.9-18, uma diferença de sete capítulos! Em Gênesis 22, Deus pôs Abraão à prova, e a autenticidade da fé de sua fé foi manifesta (cf. 2 Co 13.5). Em Gênesis 12, Abraão foi justificado por sua fé. Em Gênesis 22, a fé de Abraão é justificada por sua obediência.

    Tiago não está respondendo à pergunta “Como posso ser salvo?” e sim “Como posso saber que minha fé é autêntica?” Podemos ver isso pela declaração do versículo 18: “Você DIZ que tem fé”. A validação dessa afirmativa é dada no mesmo versículo: “Mostre-me sua fé POR suas obras”. A fé já existe, mas ela é evidenciada pelas necessárias obras que se seguem. Minha fé não prova minha fé para Deus. Ele já conhece meu coração; você não. Você pode ver minhas obras mas não pode ver meu coração. As obras são um testemunho para mim e para você.

    O nobre puritano Thomas Manton disse: “Pela justiça da fé somos quitados do pecado, e pela justiça das obras somos quitados da hipocrisia”. As obras da obediência nada acrescentam à sua justificação; são a prova visível dela.

    É isso que Paulo quer dizer em Romanos 1.5 com a expressão “a obediência por fé”. A fé, em sua essência, é fidelidade ou obediência pactual. Não é que as obras estejam de um lado e a fé de outro, mantendo-se como opostos, e sim que a fé salvadora, em sua essência, é uma fé obediente. A propriedade intrínseca ou indispensável que caracteriza a fé bíblica é a obediência. A fé salvadora, pela natureza do caso, produz obras por causa daquilo que é.

    Em Tiago 2 não se encontra uma refutação da justificação pela fé somente, nem em qualquer outro lugar na Bíblia, para dizer a verdade. É uma doutrina resolvida e segura tanto em Tiago quanto em Paulo. Possamos nós pregá-la com confiança e ousadia!

    Dr. John Armstrong

    0 comentários:

    Postar um comentário

     

    ADORAÇÃO

    SERMÕES

    CHARLES H. SPURGEON