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    Os Dois Níveis de Conhecimento – R. C. Sproul


    O famoso filósofo Immanuel Kant, no seu épico The Critique of Pure Reason (A Crítica da Razão Pura), alega que buscamos conhecimento em dois níveis ou campos distintos. Ele fez a distinção entre o campo dos fenômenos e o campo dos noumenais. O campo dos fenômenos refere-se àquele nível de realidade que percebemos com nossos cinco sentidos, o campo que podemos ver, ouvir, sen¬tir com o toque, cheirar ou sentir o gosto. E o campo da experiência empírica, o campo pesquisado pelas ciências naturais.

    O campo noumênico, segundo afirmação de Kant, é o campo de Deus, do eu e das essências metafísicas (as coisas em si mesmas). Ele argumentou que nem a razão pura, nem a investigação empírica podem penetrar no campo noumênico. Não podemos nos movimentar do campo dos fenômenos para o campo noumênico pela investigação empírica ou racional. Kant foi agnóstico sobre nossa capacidade de saber alguma coisa a respeito de Deus, do eu e das essências. Ele acreditava que nosso conhecimento está limitado ao campo dos fenômenos. Para Kant, o campo da Providência é o campo da especulação ou da razão prática. Podemos ter de viver "como se" existisse um Deus por razões práticas, mas não podemos ter o conhecimento verdadeiro de Deus e de sua providência.


    Certamente Jacó estava tirando suas conclusões com base na experiência fenomenal. Novamente, estas conclusões têm de ser vistas como justas, dada a evidência com a qual Jacó teve de trabalhar. Ele estava vivendo por meio da visão, não pela fé. Neste caso específico, a evidência tirada dos fenômenos que ele tinha à sua disposição era enganosa. Sua conclusão estava errada. Na realidade, a questão não é que José "não existia mais". José "existia e como". Ele estava vivo e bem, reinando como primeiro-ministro do Egito.

    Jacó estava convencido de que Simeão também estava morto - e novamente estava errado. Esta foi a segunda vez que os filhos de Jacó tinham voltado para casa sem um de seus irmãos. Ele tinha todas as razões para desconfiar que o mesmo fim que tinha sobrevindo a José tinha agora sobre-vindo a Simeão. No entanto, humanamente falando, Simeão nunca esteve mais seguro na vida do que estava naquele momento. Ele estava sob a tutela de seu irmão José. Na verdade, fora uma custódia protetora. Simeão não tinha coisa alguma a temer da parte de José. Contudo, nem Jacó nem Simeão estavam conscientes dessa realidade.

    Assim, Jacó chegou à sua conclusão final. Levando em consideração o desaparecimento de José e agora de Simeão, Jacó declarou: "Todas estas coisas vieram sobre mim".

    Todas as Coisas Cooperam Juntamente para o Bem O lamento de Jacó se parece muito com o grito que todos nós já demos em algum momento de nossa vida. Lembramos a patética cantiga: "Ninguém me ama; todos me odeiam; vou comer vermes". Jacó estava preparado para comer vermes. Ele estava convencido de que tudo estava trabalhando contra ele, porém nada poderia estar mais longe da verdade. A realidade era que tudo estava trabalhando para ele. Deus, na sua providência, estava trabalhando todas as coisas juntamente para o bem de Jacó e de seus descendentes. No entanto, todos os sinais externos mostra¬vam o contrário.

    Uma das frases axiomáticas da fé cristã mais usadas é a frase em latim deus pro nobis, que significa "Deus por nós". No Novo Testamento, o apóstolo Paulo exclamou: "Se Deus é por nós, quem será contra nós?" (Rm 8.31). A questão de Deus ser por nós é o ponto-chave da doutrina da providência. Deus era por Jacó. Ele prometera isso a Jacó anos antes de os irmãos de José voltarem do Egito sem Simeão. No entanto, Jacó não podia ver como isto poderia acontecer. No momento em que ele estava mais certo de que todas as coisas, incluindo Deus, estavam trabalhando contra ele, todas as coisas, pela mão de Deus, estavam na verdade trabalhando para ele. Deus tinha enviado José ao Egito para um propósito. Aquele propósito seria realizado em todas as páginas da história da redenção.

    Após o lamento de Jacó, Judá, seu quarto filho, o convenceu a deixar que seus irmãos voltassem ao Egito para conseguirem trigo e tentarem salvar Simeão. Judá ofereceu sua própria vida em defesa de Benjamim, dizendo: "Envia o mancebo comigo, e levantar-nos-emos, e iremos, para que vivamos, e não morramos, nem nós, nem tu, nem os nossos filhos. Eu serei fiador por ele, da minha mão o requererás; se eu não to trouxer, e não o puser perante a tua face, serei réu de crime para contigo para sempre" (Gn 43.8, 9).

    Jacó finalmente se deixou convencer pelo pedido e pela garantia de Judá. Ele se acalmou em resignação e disse: "E tomai em vossas mãos dinheiro dobrado; e o dinheiro que tornou na boca dos vossos sacos tornai a levar em vossas mãos; bem pode ser que fosse erro. Tomai também a vosso irmão, e levantai-vos, e voltai àquele varão; e Deus Todo-Poderoso vos dê misericórdia diante do varão, para que deixe vir convosco vosso outro irmão, e Benjamim; e eu, se for desfilhado, desfilhado ficarei" (Gn 43.12-14).

    Jacó estava pronto para dar mais um passo de fé. Ele aceitou a possibilidade de que isto poderia acabar em uma desgraça. Ele se arriscou em perder mais adiante seu amado Benjamim. Desta vez, ele não se arrependeu de sua decisão. Os irmãos de José voltaram para o Egito, garantiram o trigo, conseguiram a libertação de Simeão e descobriram a identidade de José. Quando voltaram para casa com Simeão e Benjamim e com as notícias a respeito do bem-estar de José, é-nos dito que "reviveu o espírito de Jacó seu pai" (Gn 45.27). Então, Jacó declarou: "Basta; ainda vive meu filho José; eu irei e o verei antes que morra" (Gn 45.28).
    Em última análise, a providência de Deus bastava para Jacó. Ela também deveria ser suficiente para nós. Jacó viveu para ver um pouco da mão oculta de Deus. Ele não viu todos os propósitos da providência se abrirem diante de seus olhos, mas viu o suficiente.

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