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    Não Existe Receptividade Moderna à Verdade – Abraham Kuyper


    A característica mais alarmante da situação atual é a lamentável ausência desta receptividade em nosso organismo doentio, a qual é indispensável para a realização da cura. No mundo greco-romano existiu esta receptividade; os corações abriram-se espontaneamente para receber a verdade. Esta receptividade existiu na época da Reforma em um grau ainda mais forte, quando grandes massas clamavam pelo evangelho. Naquela época, como agora, o corpo sofria de anemia, e a toxemia  igualmente tinha começado, porém não havia aversão ao único antídoto eficaz.

    É precisamente isto que agora distingue nossa decadência moderna das duas precedentes, que a receptividade dos povos ao Evangelho está em decréscimo, enquanto que a aversão positiva dos cientistas a ele está em crescimento. O convite para dobrar os joelhos diante de Cristo como Deus, muitas vezes é respondido com um meneio dos ombros, se não com a resposta sarcástica: “Adequado para crianças e mulheres velhas, não para nós homens!” A Filosofia moderna, que é bem-sucedida, considera-se numa medida sempre crescente como tendo superado o Cristianismo.

    Como Chegamos a Situação Atual?

    A Degeneração Espiritual no Final do Século Passado

    Portanto, antes de mais nada, a questão que deve ser respondida é: o que nos conduziu a esta situação. Uma questão que deriva sua suprema importância do fato de que somente um diagnóstico correto pode levar a um tratamento eficaz. Ora, historicamente, a causa desta situação é encontrada em nada mais do que na degeneração espiritual que marcou o final do século passado. A responsabilidade por esta degeneração repousa, indubitavelmente, em parte com as próprias Igrejas Cristãs, não excluindo as da Reforma. Exaustas por sua luta contra Roma, estas últimas caíram adormecidas, permitiram que as folhas e as flores murchassem em seus ramos e aparentemente tornaram-se negligentes quanto a seus deveres em relação a humanidade e a toda esfera da vida humana. Não é necessário entrar nisto mais detalhadamente. Pode ser admitido que, com respeito ao fim daquele século, o tom geral da vida se tornara insípido e ordinário, desprezível e profundamente vil. A ansiosamente devorada literatura daquele período fornece a prova.


    Uma Visão Distorcida da Natureza Humana

    Como reação contra isto, foi então feita a proposta pelos filósofos deístas e ateístas, primeiro na Inglaterra mas depois, principalmente na França, por parte dos Enciclopedistas, para colocar toda a vida sobre uma nova base, virar de cabeça para baixo a ordem existente das coisas, e organizar um novo mundo sobre a suposição de que a natureza humana continua em seu estado não corrompido. Esta concepção foi heróica e provocou uma reação; ela tocou algumas das cordas mais nobres do coração humano. Mas na grande Revolução de 1789 ela foi posta em prática em sua forma mais perigosa; pois nesta vigorosa revolução, nesta sublevação não somente das condições políticas mas ainda mais das convicções, conceitos e costumes da vida, dois elementos deveriam ser claramente distinguidos.

    As Conseqüências da Revolução Francesa

    Em um aspecto ela foi uma imitação do Calvinismo, enquanto que em outro, estava em direta oposição aos seus princípios. A grande Revolução, não deveria ser esquecida, nasceu num país Católico Romano onde, primeiro na noite de São Bartolomeu e subseqüentemente pela revogação do Edito de Nantes, os Hugenotes foram massacrados e banidos. Após esta violenta repressão do Protestantismo na França e em outros países Católicos romanos, o antigo despotismo recobrou sua ascendência, e estas nações perderam todos os frutos da Reforma.
    Esta Revolução, como caricatura do Calvinismo, convidou e constrangeu para a tentativa de atingir a liberdade pela violência externa, e para estabelecer um estado pseudodemocrático de coisas, que deveria impedir para sempre o retorno do despotismo. Assim, a Revolução Francesa, respondendo violência com violência, crime com crime, lutou pela mesma liberdade social que o Calvinismo tinha proclamado entre as nações, mas que foi tentada por ele por meio de um movimento puramente espiritual. Por isso, a Revolução Francesa, num certo sentido, executou um julgamento de Deus, um resultado que proporciona motivo de regozijo até mesmo para os calvinistas. As trevas de De Coligny foram vingadas nos homicídios de Mazas em Setembro.

    Mas este é apenas um lado da moeda. Seu reverso mostra um propósito diretamente oposto ao sadio conceito calvinista de liberdade. O Calvinismo, em virtude de sua concepção profundamente séria da vida, fortaleceu e consagrou os laços sociais e éticos; a Revolução Francesa os alargou e soltou completamente, separando a vida não simplesmente da Igreja, mas igualmente das ordenanças de Deus, até mesmo do próprio Deus. O homem como tal, cada indivíduo daqui por diante, deveria ser seu próprio senhor e mestre, guiado por seu próprio livre arbítrio e bel-prazer. O trem da vida deveria correr ainda mais rapidamente do que até agora, mas não mais obrigado a seguir os trilhos dos mandamentos divinos. O que mais poderia resultar senão destruição e ruína? Perguntem sobre a França de hoje, que fruto o conceito fundamental de sua grande Revolução produziu para a nação após seu primeiro século de livre influência tão rica em horrores. E a resposta vem numa deplorável história de decadência nacional e desmoralização social.

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