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    A Lei Moral e a Graça – J. Bridges


    Alguém poderá protestar: "Mas Paulo não disse em Efésios 2.15 que Cristo 'aboliu na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças'? Ele não disse que Cristo nos libertou da lei e não insistiu que permanecêssemos firmes nessa liberdade?" (Gl 5.1). Temos de tratar essas perguntas com honestidade se quisermos entender corretamente o relacionamento da lei de Deus com a graça.

    Para responder à primeira pergunta, Paulo certamente não quer dizer que a lei moral de Deus foi abolida. Um significado desses contradiria o que ele tanto escreveu em outros lugares. Na verdade, o próprio Paulo se referiu explicitamente aos Dez Mandamentos mais adiante na mesma carta: "Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, pois isto é justo. Honra a teu pai e a tua mãe (que é o primeiro mandamento com promessa)" (Ef 6.1,2).

    Assim, ele não pode estar dizendo que Cristo aboliu a lei de Deus como expressão da vontade moral de Deus. Nem que os requisitos da lei foram transformados apenas num desejo de Deus. A palavra aboliu não sustenta esse significado. Paulo certamente dizia que Cristo aboliu a maldição da lei e a condenação da lei para aqueles que têm fé nele.


    Em Gaiatas 3.10, ele escreveu: "Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no livro da lei, para praticá-la". Essa passagem nos dá uma sugestão do que Paulo quis dizer em Efésios quando disse que Cristo aboliu a lei. É a lei vista como condenação e maldição para quem a desobedece que foi abolida. Cristo aboliu a lei no sentido de levar sobre si a maldição em nosso lugar. Em Gaiatas 3.13, Paulo continuou: "Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar, porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro". Esse versículo também nos ajuda a entender em que sentido Paulo disse que fomos chamados para a liberdade (Gl 5.1).

    A questão na igreja da Galácia não era obediência à lei moral de Deus, mas uma dependência da lei moral e da lei cerimonial mosaica para a salvação. Alguns mestres judeus diziam, "E necessário circuncidá-los e determinar-lhes que observem a lei de Moisés" (At 15.5). Cristo nos libertou dessa insistência judaica na observância da lei de Moisés. Estamos livres da maldição sobre aqueles que dependem do cumprimento da lei como meio de salvação.

    É difícil para nós, hoje, apreciarmos a luta que os crentes gentios recém-convertidos tinham com os "guardadores da lei" judaica dos dias de Paulo. Temos de entender o que Paulo queria dizer por liberdade no contexto da questão em que ele lutava. De outro modo, poderemos in¬terpretá-lo como dizendo mais do que ele disse.

    Na história dos Estados Unidos, um patriota famoso clamou, "Dá-me a liberdade ou dá-me a morte" (isso foi imitado por Dom Pedro I, quando ele declarou a independência do Brasil dizendo, "Independência ou morte!" - n.t.). Como nós sabemos que ele fez essa declaração no contexto da Revolução Americana, entendemos que ele falava especificamente da liberdade do jugo britânico. Ele não estava pedindo liberdade de qualquer lei civil, mas do que considerava a tirania de leis injustas.

    Do mesmo modo, Paulo não pedia liberdade em sentido absoluto, mas liberdade do jugo do sistema de leis judaico, que foi abolido por Cristo na sua morte. Quando paramos para pensar nisso, não existe liberdade sem qualificações. Uma liberdade assim não seria liberdade, mas anarquia. Cada um faria o que é certo aos seus próprios olhos e, dada a nossa natureza pecadora, seria o caos total.

    Nós dizemos que vivemos num "país livre". Entendemos isso como liberdade política: o direito de participar do governo. Mas todos reconhecemos que não estamos livres para desobedecer às leis do estado ou da nação. Não somos livres, por exemplo, para dirigir o carro no lado esquerdo da rodovia.

    Meu filho observou um engraçado exemplo de "liberdade" quando visitou um país em que os motoristas são indisciplinados e fazem o que querem. Ele viu carros parados num cruzamento de trem esperando o trem que passava. Em vez formarem uma fila para atravessar no mo¬mento certo, vários carros se alinhavam ao longo da cancela. Cada um queria ser o primeiro a atravessar depois que o trem tivesse passado. Mas quando o trem passou, os carros do outro lado do trilho também estavam amontoados esperando para passar. A "liberdade" se transformou em caos! Esse tipo de coisa acontece de modo muito mais sério quando insistimos em liberdade sem limites da lei de Deus.

    Realmente fomos libertos do jugo e da maldição que resulta de quebrar a lei. E fomos chamados à liberdade das obras como meio de obter qualquer mérito diante de Deus. Mas não fomos chamados à liberdade da lei como expressão da vontade de Deus para a nossa vida cotidiana.

    Paulo disse: "Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus... Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado" (Rm 7.22,25). Alguns versículos antes ele havia caracterizado a lei de Deus como santa, justa e boa (v. 12). Parece inconcebível que Paulo quisesse se libertar, ou insistir com outros para que se libertassem, do que era santo, justo e bom - no que ele mesmo se deleitava.

    De modo que, então, a lei de Deus não se opõe à graça, e nem é uma inimiga da graça. E nem a lei de Deus se opõe a nós na medida em que procuramos viver pela graça. Viver pela graça significa entender que a bênção de Deus sobre a nossa vida não é condicionada pela nossa obediência ou desobediência, mas pela perfeita obediência de Cristo. Significa que, em resposta de gratidão à graça de Deus, procuramos entender a sua vontade e obedecer a ele, não para sermos abençoados, mas porque fomos abençoados.


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