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    A Necesidade da Metafísica - Francis Scheaffer


    Os cristãos têm tendido a desprezar o conceito de filosofia. Esta tem sido uma das fraquezas do Cristianismo evangélico ortodoxo - temos nos vangloriado em nosso desprezo à filosofia e nos orgulhado excessivamente da condenação de tudo quanto diz respeito ao intelecto. Nossos seminários teológicos dificilmente fazem qualquer relação entre a sua teologia e a filosofia, principalmente no que diz respeito à filosofia contemporânea. Assim, os estudantes formam-se nos seminários teológicos sem a mínima noção de como relacionar o Cristianismo às visões de mundo a seu redor. Não que eles não saibam respostas. Pelo que tenho observado, a maioria dos estudantes que se tornam bacharéis em seminários teológicos desconhecem as perguntas.

    Na verdade, a filosofia é universal no seu escopo. Nenhum ser humano é capaz de viver sem uma visão de mundo; por isso, não há ser humano que não seja um filósofo.

    Não há muitas respostas possíveis aos três campos básicos do pensamento filosófico, ainda que haja uma grande quantidade de detalhes circunstanciais implicados nas questões fundamentais. Será de tremenda ajuda - a todos aqueles que estão estudando filosofia na universidade, sentido-se intelectualmente exauri¬dos até a morte, ou tentando ser ministros do Evangelho, dialogando com as pessoas comuns - se percebermos que, por mais que possa haver detalhes discutíveis - em sua concepção básica - são extremamente reduzidas as possibilidades de resposta.


    A primeira é a que diz não haver explicação lógica ou racional. Este é antes um fenômeno típico da nossa geração sob a "Linha do Desespero". Não estou dizendo que ninguém tivesse defendido tais pontos de vista no passado, e sim que estas não eram opiniões dominantes. Hoje, elas são muito mais freqüentes do que jamais foram. Isso vale não apenas para os filósofos em suas discussões, mas também é igualmente válido para as conversas de esquina, na padaria, na lanchonete da universidade, ou no posto de gasolina. A solução geralmente proposta é que não há explicação lógica ou racional - afinal de contas tudo é caótico, irracional e absurdo. Este ponto de vista é expresso com grande finesse no mundo do pensamento existencial e no Teatro do Absurdo. Esta é a filosofia ou visão de mundo defendida por muitas pessoas hoje em dia. Este pensamento faz parte da corrente e trama do pensamento de hoje.
    Se alguém sustenta que tudo é sem sentido, que não existe explicação para nada e que não há relação de causa e efeito, se realmente sustentasse tal posicionamento com certo grau de consistência, seria muito difícil de refutar. Mas, de fato, ninguém pode sustentar, com coerência, que tudo seja caótico e irracional, que não haja respostas fundamentais. Pode-se até afirmar teoricamente que tudo seja caótico, mas não se pode sustentar esta afirmação na prática.

    A primeira razão pela qual o posicionamento irracional não possa ser sustentado na prática é o fato de que o mundo externo existe e que tenha certa forma e ordem. Não se trata de um mundo caótico. Se fosse verdade que tudo é caótico, sem nexo e absurdo, a ciência também, bem como a vida em geral, chegaria a um final. Nem mesmo seria possível viver, se não partíssemos do pressuposto de que o universo - este universo exterior existe e que tem determinada forma, certa ordem, e que o ser humano se conforma com tal ordem, de modo a conseguir viver no seu nele.

    Talvez você se lembre de um dos filmes de Godard, Pierrot le Fou (Pierrot, o louco), no qual as pessoas usam as janelas, ao invés das portas, para entrar e sair. O mais interessante é que elas não saíam atravessando as paredes sólidas. Godard está dizendo que, embora ele não tenha respostas, ao mesmo tempo, porém, ele não pode sair atravessando paredes sólidas. Esta é meramente a sua expressão da dificuldade em se sustentar que o universo que está aí seja totalmente caótico, enquanto que o mundo externo tem forma e ordem.
    Às vezes as pessoas tentam dar um pouco de ordem; porém, basta mostrar que é possível colocar um pouco de ordem aqui ou ali, para que as explicações da primeira classe  de que tudo é sem sentido, tudo é irracional - não mais sejam auto-sustentáveis e caiam por terra.

    A visão de que tudo seja caótico e que não haja respostas fundamentais é sustentado por muitas cabeças pensantes de hoje, mas pela minha experiência, eles sempre a defendem seletivamente. Quase que sem exceções (na verdade, eu nunca vi exceção alguma), eles discutem racionalmente até estarem perdendo a discussão, quando tentam refugiar-se no argumento da irracionalidade. Mas, assim que a pessoa, com quem estamos discutindo, age desta forma, devemos destacar que, no momento em que ela se torna seletiva em sua argumentação quanto ao irracionalismo, está tornando todo o seu discurso suspeito. O posicionamento do irracionalismo pode até ser teoricamente mantido, mas ninguém convive com ele quando se trata do mundo exterior ou das categorias do seu próprio mundo intelectual e de sua argumentação. O fato é que, se este posicionamento fosse argumentado de forma apropriada, toda esta discussão terminaria. A comunicação terminaria. Não estaríamos fazendo mais do que emitir uma série de sons sem sentido -blá, blá, blá. O Teatro do Absurdo dizia isto, mas foi um equívoco, porque se você lê e ouve cuidadosamente o que tem a dizer o Teatro do Absurdo, nota que ele está sempre tentando comunicar a sua opinião de que não é possível comunicar-se. Há sempre quem comunique aos outros que não existe comunicação. Este tipo de declaração é sempre seletiva, com pacotes fechados de ordenação introduzidos em algum momento desta linha de raciocínio. Assim, vemos que esta classe de explicação - de que todas as coisas são irracionais - não é uma resposta.



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