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    Exegese direta e antropomorfismo - John Frame


    Uma das discussões entre os teólogos do teísmo aberto e os teólogos tradicionais tem a ver com a interpretação das referências nas Escrituras ao "arrependimento de Deus", que ele "muda de opinião", que "continua a adquirir conhecimento" etc. A pergunta é, essas referências devem ser tomadas de modo literal ou figurado? Ware diz:

    Um dos apelos iniciais da proposta do teísmo aberto é o seu desafio para que entendamos o texto das Escrituras simplesmente como está escrito. Os defensores da doutrina do teísmo aberto argumentam: parem de fazer com que a Escritura diga o oposto do que ela diz tão claramente e com tanta simplicidade. Quando o SENHOR diz a Abraão... "pois agora sei que temes a Deus" (Gn 22.12), precisamos deixar que essas palavras falem e signifiquem o que transmitiriam numa conver-sação normal. Ou seja, Deus realmente e literalmente descobriu o que ele antes não sabia.

    Escritores que defendem o teísmo aberto geralmente falam desse princípio como sendo uma exegese "direta". No entanto, os teólogos tradicionais têm costumeiramente descrito essas passagens como sendo "antropomórficas": elas descrevem Deus como se ele fosse um homem. Na visão tradicional, Deus tem conhecimento perfeito do futuro e, portanto, não pode, literalmente, aprender algo novo.


    Ware ressalta que a interpretação direta de Gênesis 22.12 não pode ser mantida, nem mesmo pelo sistema do teísmo aberto. Ele expõe três pontos. Primeiro, se Deus literalmente precisava testar Abraão para saber o que se passava no coração dele, então a sua ignorância não era com respeito ao futuro, mas ao presente. No entanto, os teólogos do teísmo aberto declaram com freqüência que Deus conhece o presente exaustivamente. Em segundo lugar, essa interpretação nega o que os teólogos do teísmo aberto afirmam em outro lugar, ou seja, que Deus conhece as motivações interiores do coração do homem. Em terceiro lugar, se Deus estiver tentando saber se Abraão irá ser fiel no íliruro, ele está tentando conhecer as escolhas da liberdade indeterminista antecipadamente, a qual, do ponto de vista do teísmo aberto, nem mesmo Deus pode saber.

    Concordo com Ware que geralmente devemos seguir o significado apa-rente do texto, a menos que tenhamos alguma razão para fazê-lo de outra maneira. Contudo, as controvérsias exegéticas acontecem exatamente em torno dessas razões. Não podemos resolver essas controvérsias sem avaliar essas razões. Simplesmente reivindicar que a interpretação correta é a direta não resolve. No exemplo de Ware, tanto os teólogos do teísmo aberto quanto os tradicionais têm razões para não interpretar o texto literalmente, mesmo que os teólogos do teísmo aberto nem sempre tenham consciência das suas razões.

    A exegese desses textos deve levar em consideração o seu significado aparente, bem como o restante dos ensinamentos das Escrituras sobre Deus. A teologia tradicional reconhece esse aspecto da interpretação, pois considera que textos como Gênesis 22.12 são antropomórficos, com base na sua visão ampla do conhecimento de Deus. Os teólogos do teísmo aberto deveriam estar igualmente preocupados em entender o texto à luz de suas outras afirmações, embora, muitas vezes, eles não estejam preocupados com isso. Eles deveriam, ao menos, estar mais preocupados com a consistência lógica entre a sua interpretação de Gênesis 22.12 e suas outras declarações sobre Deus. Em todo caso, é simplista afirmar que a teologia tradicional trata esses textos antropomorficamente, enquanto o teísmo aberto os trata literalmente.

    De fato, é até mesmo simplista classificar todas as interpretações como sendo antropomórficas ou literais. Todas as referências bíblicas sobre Deus são antropomórficas no sentido de que elas falam de Deus em linguagem humana, usam conceitos que são, ao menos de certa maneira, compreensíveis aos seres humanos. Elas fazem alguma comparação entre Deus e os seres humanos, pelo menos implicitamente. E todas essas referências são literais, pois, entendidas corretamente, apresentam Deus como ele é realmente e verdadeiramente.

    Na verdade, de diversas maneiras, Deus é literalmente como um homem. Por exemplo, o homem fala e Deus também fala, embora a fala de Deus seja, em muitos aspectos, diferente da dos homens. E, como veremos, quando Deus entra na História (como na Encarnação, mas não só então) ele sente o fluxo do tempo do mesmo modo que nós: ele vê uma coisa acontecendo na segunda-feira e outra na terça. As referências nas Escrituras com respeito aos atos de Deus no tempo são antropomórficas, embora não sejam somente isso.


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