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    A Cruz e a glória de Deus - John Stott


    Segundo o Evangelho de João, Jesus referiu-se à sua morte como uma "glorificação": o evento por meio do qual ele e o Pai seriam supremamente "glorificados" ou manifestados. Essa idéia pode surpreender a muitas pessoas. No Antigo Testamento a glória ou o esplendor de Deus era revelada na natureza e na história, isto é, no Universo criado e na nação redimida. Por outro lado, os céus e a terra estavam cheios da sua glória, incluindo-se {acrescentou Jesus) as flores primaveris da Galiléia, cuja glória excedia até mesmo a de Salomão.1 Por outro lado, Deus mostrou a sua glória libertando a Israel do cativeiro egípcio e do babilônico, e revelando ao povo o seu caráter misericordioso e justo. Assim Deus demonstrou a sua majestade no seu mundo e no seu povo.

    Não é de surpreender que quando se inicia o Novo Testamento, a glória seja associada a Jesus Cristo. Como escreveu Lord Ramsey, de Cantuária: "até onde vai a idéia de que doxa seja a doutrina do esplendor, Jesus Cristo é esse esplendor".

    Segundo os Evangelhos Sinóticos, contudo, embora a glória de Jesus fosse vislumbrada na Transfiguração, a sua manifestação completa não se daria até a "parousia" e reino, época em que então se consumaria.


    Seria uma revelação de "poder e glória". O notável acerca da apresentação de João é que, embora a glória de Cristo tivesse sido ma¬nifestada poderosamente em seus milagres ou "sinais"5, acima de tudo devia ser vista em sua fraqueza presente, na auto-humilhação da encarnação.

    "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai" (João 1:14). Não devemos perder as alusões do Antigo Testamento. A glória de Deus que sobreparava e enchia o tabernáculo no deserto agora está sendo demonstrada naquele que por um pouco habitou (eskenosen, "tabernaculou") entre nós. E assim como Yavé mostrou a Moisés a sua glória, declarando que o seu nome era tanto misericordioso quanto justo, da mesma forma a glória que vimos em Jesus Cristo foi "cheia de graça e de verdade". Mais importante ainda é a antítese deliberada entre "carne" e "glória" e, portanto, o "paradoxo fundamental da glória da humilhação divina".

    A auto-humilhação do Filho de Deus, a qual começou na encarnação, culminou na sua morte. Contudo, nessa mesma humilhação ele foi "levantado", não apenas fisicamente elevado à cruz, mas também espiritualmente exaltado perante os olhos do mundo.Deveras, ele foi "glorificado". A cruz que parecia "vergonha" era, de fato, "glória". Ao passo que nos Evangelhos Sinóticos o sofrimento é o caminho da glória futura, para João é também a arena em que na realidade ocorre a glorificação. Em três ocasiões distintas Jesus se referiu à sua morte vindoura como a hora da sua glorificação.

    Primeira, em resposta ao pedido de alguns gregos que procuravam vê-lo, Jesus disse: "É chegada a hora de ser glorificado o Filho do homem", e prosseguiu imediatamente a falar da sua morte em termos tanto do grão de trigo que cai ao chão como da glória que o Pai havia de trazer ao seu próprio nome.
    Segunda, assim que Judas deixou o cenáculo e entrou na noite, Jesus disse: "Agora foi glorificado o Filho do homem, e Deus foi glorificado nele".
    Terceira, ele iniciou a sua grande oração no final da refeição no cenáculo, com as palavras: "Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que o teu Filho te glorifique a ti".

    O notável acerca das três passagens é que, primeiro, cada uma é introduzida por "agora" ou "é chegada a hora", em referência indisputável à cruz; e, segundo, que a glorificação será do Pai e do Filho juntos.

    De modo que o Pai e o Filho são revelados pela cruz. Mas o que é que revelam de si mesmos? Certamente a auto-humilhação e a auto-doação do amor estão implícitas aqui. Mas e a santidade desse amor, que tornou necessário que o Cordeiro de Deus tirasse o pecado do mundo e que o Bom Pastor desse a sua vida pelas ovelhas, e que fez mais expediente (como Caifás corretamente profetizou) que um homem morresse pelo povo em vez de perecer toda a nação?11 Essas afirmativas eram parte integral da compreensão que João tinha da morte mediante a qual Pai e Filho seriam glorificados. A glória que se irradia da cruz é a mesma combinação de qualidades divinas que Deus revelou a Moisés como misericórdia e justiça, e a qual vimos no Verbo feito carne como "graça e verdade". Essa é a "bondade" de Deus, a qual Calvino viu demonstrada no "teatro" da cruz:

    Pois na cruz de Cristo, como num esplêndido teatro, a incomparável bondade de Deus é apresentada diante do mundo todo. A glória de Deus brilha deveras em todas as criaturas de cima e de baixo, mas jamais tão viva quanto na cruz. . .

    Se alguém apresentar a objeção de que nada poderia ser menos gloriosa do que a morte de Cristo. . . respondo que nessa morte vemos a glória imensurável que está oculta aos ímpios.

    Quando passamos de João a Paulo, o conceito de que Deus se revelou na cruz e por meio dela, torna-se ainda mais explícito. O que para João é manifestação da glória de Deus, para Paulo é a demonstração, deveras, a vindicação, do seu caráter de justiça e amor. Pode ser útil, antes de estudarmos os dois textos-chave separadamente, examiná-los lado a lado. Ambos ocorrem na carta aos Romanos:

    A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no presente, para ele mesmo ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus (3:25-26).

    Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores (5:8).

    Os verbos gregos traduzidos por "demonstrar" no capítulo três e "provar" no cinco, apesar de serem diferentes, significam a mesma coisa, e Paulo está declarando que na morte de Cristo, Deus nos deu uma demonstração clara e pública da sua justiça e do seu amor. Já vimos como Deus "satisfez" a sua ira e amor, justiça e misericórdia, dando-se a si mesmo em Cristo para levar o nosso pecado e condenação. Agora vamos ver como, ao satisfazer a esses atributos divinos na cruz, ele os demonstrou e expôs.

    A justiça de Deus

    Homens e mulheres de sensibilidade moral têm sempre ficado perplexos pela aparente injustiça da providência divina. Esse problema está longe de ser moderno. Desde o tempo de Abraão, que se indignou porque Deus pretendia destruir a Sodoma e Gomorra e no processo matar os justos com os ímpios, e proferiu o grito de angústia: "Não fará justiça o Juiz de toda a terra?" (Gênesis 18:25), os personagens e os autores da Bíblia têm lutado com essa questão. Ela é um dos temas recorrentes da Literatura de Sabedoria e domina o livro de Jó. Por que os ímpios florescem e os inocentes sofrem? Diz-se que "pecado e morte", transgressão humana e juízo divino encontram-se equilibrados, até mesmo unidos inseparavelmente. Por que, então, não vemos com mais freqüência pecadores castigados? Pelo contrário, com grande freqüência, parecem escapar impunes. Os justos, por outro lado, muitas vezes são acometidos por desastres. Não somente Deus não os protege, mas também não responde às suas orações e até mesmo parece não se importar com o destino deles. De modo que, evidentemente, há uma necessidade de uma "teodiceia", uma vindicação da justiça de Deus, uma justificação à humanidade dos modos aparentemente injustos de Deus.

    A Bíblia responde a essa necessidade de dois modos complementares. Primeiro, olhando para o juízo final e, segundo (da perspectiva dos crentes do Novo Testamento), olhando de volta para o juízo decisivo realizado na cruz. Quanto à primeira perspectiva, era ela a resposta-padrão ao problema no Antigo Testamento, resposta da qual o Salmo 73 é um exemplo. Os perversos prosperam. São saudáveis e ricos. Apesar de sua violência, arrogância e soberbo desafio a Deus, saem ilesos. Nenhum raio do céu os abate. O salmista admite que, ao invejar a liberdade deles de pecar e a sua imunidade ao sofrimento, quase se desviou de Deus, pois seus pensamentos eram mais semelhantes aos dos animais selvagens do que aos de um israelita piedoso. Até entrar "no santuário de Deus" ele não conseguiu chegar a nenhuma compreensão satisfatória. Então ele atinou "com o fim deles". Não têm consciência de que o lugar em que se firmam com tanta confiança é por demais escorregadio, e que um dia cairão, assolados pelo justo juízo de Deus.

    O Novo Testamento repete várias vezes essa mesma certeza de juízo último, no qual os desequilíbrios da justiça serão corrigidos.

    Paulo diz aos filósofos atenienses que Deus só não levou em conta a idolatria no passado porque "estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou", e adverte seus leitores de Roma a não presumirem das riquezas da "bondade, tolerância e longanimidade" de Deus, as quais lhes estão dando espaço para o arrependimento. Pedro dirige a mesma mensagem aos "escarnecedores", que ridicularizam a noção de um juízo futuro. A razão de esse dia ainda não haver chegado é que Deus, em sua tolerância, está mantendo aberta a porta da oportunidade um pouco mais, "não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento".

    Se o propósito da primeira parte da "teodiceia" bíblica é advertir acerca do juízo final vindouro, a segunda é declarar que esse juízo já se realizou na cruz. É por isso que Deus permitiu, por assim dizer, que os pecados se acumulassem no tempo do Antigo Testamento sem ser punidos (como mereciam) ou perdoados (visto ser "impossível que sangue de touros e de bodes remova pecados"). Mas agora, diz o escritor da carta aos Hebreus, Cristo é o "Mediador de nova aliança a fim de que, intervindo a morte para remissão das transgressões que havia sob a primeira aliança". Em outras palavras, o motivo da inação anterior de Deus em face do pecado não era indiferença moral mas tolerância pessoal até que Cristo viesse e o removesse na cruz. A passagem clássica sobre esse tema é Romanos 3:21-26.

    Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos [e sobre todos] os que crêem; porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus; a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.


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